Quando se inicia um tratamento com agonistas do GLP-1, a maioria das pessoas espera mudanças no apetite e no peso. O que menos se espera, e o que raramente aparece nas conversas iniciais com o médico, são as alterações de humor. Irritabilidade sem motivo aparente, episódios de ansiedade, uma apatia que não combina com o dia a dia. Para quem sente isso, a reação mais comum é duvidar de si mesmo. Será que é psicológico? Será que estou a exagerar? A resposta curta é: não. A literatura científica já começou a mapear a relação entre os agonistas do GLP-1 e o sistema nervoso central, e os resultados apontam para uma conexão real.
Os recetores do GLP-1 estão presentes em áreas cerebrais associadas à regulação emocional, incluindo o hipotálamo e o sistema límbico. Estudos publicados em journals como o Nature Metabolism e o Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism sugerem que os agonistas do GLP-1 exercem efeitos sobre os sistemas serotoninérgico e dopaminérgico, ainda que de forma indireta. Em termos simples, o mesmo mecanismo que reduz a fome pode influir na forma como o cérebro processa o prazer, a motivação e o bem-estar. O investigador John M. Dixon, da Universidade de Stanford, explorou esta via no estudo "GLP-1 receptor agonism and emotional regulation: mechanistic and clinical perspectives" publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (2022), mostrando que a redução da ingestão calórica por si só não explica as mudanças de humor reportadas pelos pacientes.
O que acontece na prática é o seguinte: a restrição calórica repentina cria um défice que o organismo interpreta como sinal de escassez. O cérebro responde alterando os níveis de neurotransmissores. A serotonina e a dopamina, ambos fundamentais para a regulação do humor, sofrem flutuações que podem manifestar-se como irritabilidade, dificuldade em dormir, anscast de preocupação ou um sentimento persistente de descrença. Isto não significa que o tratamento esteja a falhar. Significa que o corpo está a ajustar-se a uma nova forma de funcionar.